A situação que Portugal (e o mundo) está a viver atualmente, está a mudar a rotina e as atividades de todos os trabalhadores. Ao poucos, cada vez mais empresa – de diversas áreas e competências – estão a mandar para casa os seus colaboradores como resposta de contingência. O objetivo é impedir a propagação do COVID-19, uma vez que já contaminou mais de 120 mil pessoas em todo o mundo, e que está a ser a causa do aumento do teletrabalho. Portugal também está a seguir esta onda, já que conta com mais de 70 casos de infeção.

Adaptar-se a esta mudança radical – e tão repentina – pode ser difícil e exigente, pelo que foram reunidos algumas dicas de profissionais que já estão mais do que habituados a trabalhar de casa. Conheça estes conselhos e coloque-os em prática:

1. Criar uma lista diária de objetivos concretizáveis

Para Andreia Reisinho Costa, motion designer de 37 anos e que trabalha a full-time a partir de casa há mais de três anos, o essencial é “…ter uma lista de afazeres diários com os objetivos a cumprir”, afirma a partir do escritório que montou no quarto. “Tenho sempre tarefas que executo para cada cliente e vou fazendo o check quando termino”, explica, “É -me imprescindível criar objetivos concretizáveis todos os dias para que eu desenvolva o meu trabalho e para que me mantenha motivada.”.

Carla Porto, membro do Conselho do Colégio da Especialidade de Psicologia do Trabalho Social e das Organizações, destaca também a importância da definição de objetivos a cumprir, as respetivas datas de entrega e horários de trabalho, algo que deve ficar estruturado à priori entre trabalhador e empresa.

2. Estabelecer uma rotina de trabalho

Segundo Rafael Tonon – jornalista freelancer de 37 anos – “Trabalhar em casa é um convite à distração”. O brasileiro que está a viver no Porto colabora com diferentes publicações espalhadas pelo mundo. A principal – Fine Dining Lovers – está sediada em Milão, que está gravemente afetada pelo COVID-19, o que levou ao seus colegas a trabalhar a partir de casa há cerca de duas semanas. Para Rafael Tonon, já lá vão oito anos, Tento criar uma rotina de trabalho. Acordo, tomo o pequeno-almoço tranquilamente e ouço um podcast. Mas depois do banho estou pronto para trabalhar. Tento fazer as horas certas. Rafael tem uma estrutura de trabalho constante: começa o dia a ler os emails de trabalho e, de seguida, dedica-se aos textos. Enquanto o faz, o seu telemóvel está desligado – de modo a evitar distrações. Na parte da tarde volta a consultar a caixa de correio eletrónico. A definição de horários é essencial até para manter uma coerência na vida a dois. A mulher de Rafael chega a casa pelas 17h, pelo que o jornalista tenta ficar o mais focada possível até o relógio marcar a essa hora, todos os dias: “Por ser freelancer muita gente acha que tenho um horário livre. Não é porque estou em casa que não estou a trabalhar.”, explica.

Andreia Reisinho Costa também menciona experiência própria e como os horários dependem de cada pessoa. No seu caso, prefere deixar as tarefas mais criativas para as primeiras horas da manhã, deixando para o horário da tarde os trabalhos mais mecanizados. Esclarece ainda que os clientes para os quais trabalha tendem a ter um horário de funcionamento habitual: das 09h às 17h, sensivelmente. Exitem dias em que o trabalho se estende após essas horas, mas são raras as vezes que isso acontece. “Faço de tudo para manter uma vida saudável”, assegura, até porque Andreia e a mulher trabalham juntas no mesmo espaço.

Para Helena Magalhães, influencer e escritora, que trabalha em casa desde 2015, afirma que o seu primeiro ano foi exigente porque deu por si a fazer tudo o que não devia fazer, tal como ficar de pijama até à hora de almoço e trabalhar na cama com o computador, tudo comportamentos que anulam a produtividade. O conselho mais importante, argumenta, é “manter as rotinas”. “Acordar cedo, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, vestir, tudo igual como se fosse trabalhar fora de casa. Isso cria no nosso corpo e mente o foco de trabalho. Há quem goste de fazer meditação de manhã, por exemplo. Eu leio e ligo o rádio. Ouço as notícias e música enquanto organizo o que tenho para fazer.” explica.

3. Criar um ambiente de trabalho apropriado

No escritório de Andreia Costa, não há televisão, “…oiço música e basta-me.”. Se na primeira casa onde ela e a mulher viveram o escritório estava integrado na sala, na morada atual o cenário é bem diferente: no quarto com mais luz da casa as secretárias de ambas estão costas com costas, rodeadas por materiais de apoio.

No caso de Rafael Tonon, no Brasil, até tinha uma divisão em casa só para proteger o escritório. No Porto, a sua casa é consideravelmente mais pequena, pelo que o jornalista freelancer faz o que pode no T1. O escritório improvisado, durante as horas de trabalho, é a sala, a qual tende ser ocupada pela mulher por volta as 17h.  Devido à impossibilidade de se ter uma divisão destinada apenas ao trabalho a full-time, Rafael fala na importância de quem faz teletrabalho adaptar-se à rotina da casa. “É preciso criar uma área de trabalho dentro de casa. Não é por trabalhar em casa que se pode trabalhar deitado na cama.”

A  psicóloga Carla Porto acrescenta ainda que O trabalhador em si terá de ter muita disciplina e criar um ambiente de trabalho em casa. É preciso definir o espaço de trabalho e manter os mesmos hábitos: acordar à mesma hora, almoçar à mesma hora, etc.

4. Trabalhar por blocos de tempo e fazer pausas

Segundo Helena Magalhães a sua rotina passa por trabalhar “por blocos de tempo e faço pausas a cada hora e meia, mais ou menos. Nos escritórios fazemos a pausa do café, em casa faz-se o mesmo. Pausa para relaxar, esticar, andar, falar ao telefone, beber um café, comer, etc. Ficar a manhã toda sentada a trabalhar é desgastante e vai fazer com que, durante a tarde, pareça que já trabalhámos um dia inteiro”. Como influence também faz pausas das redes sociais que “…é um tema impossível de fugir atualmente. Tenho todas as notificações das redes sociais desativadas porque são uma distração constante ao longo do dia e reduzem a produtividade e a concentração. Assim, nas pausas, é quando espreito as redes sociais, vejo os Whatsapps, converso um pouco.”.

Luís Gonzaga também defende as pausas regulares no trabalho e que não se deve trabalhar mais do que uma ou hora e meia se seguida. Afirma também que as pessoas devem sair de casa de maneira a regular os dois ambientes: casa versus trabalho. Caso não seja possível, aconselha idas à janela ou varandas com alguma regularidade

5. Vestir-se e não trabalhar de pijama

“Já me aconteceu trabalhar de pijama e vestir-me apenas para uma videochamada. Acordar mais tarde e não nos vestirmos… não é por aí… mas seria recomendável que mantivéssemos a maior parte das nossas rotinas até porque é uma forma de lembrar que esta é uma situação transitória. E não estamos de férias”, explica Carla Porto, psicóloga e membro do Conselho do Colégio da Especialidade de Psicologia do Trabalho Social e das Organizações.

Para Andreia Costa, a higiene diária é feita como se ela fosse trabalhar fora de casa. A única diferença são os chinelos em vez dos ténis: “Visto-me e trato do rosto como noutro dia qualquer”. O brasileiro Rafael Tonon também se veste — e até se calça — como se fosse trabalhar para um escritório.

6. Manter o contacto com colegas e chefias

Carla Porto aconselha o contacto com os colegas e superiores, uma medida que para além de promover um trabalho eficaz – e que evita a falsa sensação de liberdade – ajuda a afastar a sensação de solidão. Pode ultrapassar a questão do isolamento de outras formas, como optar uma por alimentação com maior qualidade, manter o contacto com as pessoas de quem gosta por vídeochamada ou através de redes sociais, pôr séries ou filmes em dia, etc: “Tudo o que possa dar prazer.”.

Fonte: Observador