O emprego aumentou – entre 2013 e 2019 – mas está mais envelhecido e qualificado. Até 2019 o emprego tinha recuperado desde a crise financeira, mas com alterações estruturais significativas.

O crescimento do emprego é evidente em tarefas predominantemente abstratas e com menor risco de automação. A maior perda de volume de emprego, notou-se em funções que empregam trabalhadores menos qualificados.

As mulheres estão em minoria nas profissões que mais perdem e em maioria na generalidade das profissões que mais crescem.

Os dados deste estudo revelam ainda que poderá haver uma escassez de profissionais nas áreas das tecnologias de informação e comunicação e também de profissionais de saúde.

Estes são dados do relatório “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal“, da Fundação José das Neves, que pretende dar a conhecer o ponto de situação da educação, do emprego e das competências em Portugal.

Este primeiro Estado da Nação faz uma retrospetiva das principais dinâmicas na educação, emprego e competências durante a última década.

Recuperação do emprego após a crise financeira

A empregabilidade sofreu um grande decréscimo devido à crise financeira internacional. O número de empregos suprimidos era muito superior aos postos de trabalho criados.

Perderam-se em Portugal cerca de 311 mil empregos, no período de 2011 a 2013. Mas, após 2013, o número de novos empregos voltou a aumentar, o que permitiu que em 2017 voltasse a atingir o valor de 2011. E assim, em 2019 ter uma população empregada 4% superior à de 2011.

O mercado de trabalho do pós crise

O pós crise acentuou desigualdades nos grupos de população, resultando em diferenças na composição da população empregada.

Os homens são a predominância na empregabilidade, mas também foram quem mais perdeu o seu posto de trabalho anteriormente, tendo caído 8%, enquanto que nas mulheres a queda foi de 5%.

De 2013 a 2019 o crescimento foi notável nos dois grupos, mas mais pronunciado para as mulheres.

Em 2011, as mulheres representavam cerca de 48% da população empregada, já em 2019 passaram para 49% do total dos trabalhadores portugueses.

População empregada mais envelhecida

O grupo dos trabalhadores mais velhos, em 2019 representava quase 48% do total de trabalhadores, mais 5% que em 2011.

Em contrapartida, os jovens trabalhadores dos 25 aos 34 anos constituem um grupo especialmente penalizado. Em 2011 ocupavam 23% dos empregos existentes, reduzindo para 21%, em 2013. Este cenário prolongou-se até 2019, ano em que já só representavam 19% do total de trabalhadores.

A melhoria das qualificações da população portuguesa

A escolaridade dos trabalhadores está a aumentar! Entre 2011 e 2019, o número de trabalhadores que concluiu o ensino secundário aumentou 50% e o ensino superior 54%.  Já o número dos que ficaram pelo ensino básico, reduziu 27%.

Com isto, houve uma reorganização da população empregada por níveis de educação. Então, a população menos escolarizada deixou de estar em maioria.

Esta descida é compensada pelo aumento do número de trabalhadores com o ensino secundário, de 20% para 29%, e dos diplomados de ensino superior, de 19% para 28%.

Quanto especificamente ao ensino superior, a licenciatura continua a ser o ciclo mais comum, mas tem perdido terreno para os mestrados. A população empregada com mestrado quase triplicou desde 2011.

O setor dos serviços destaca-se na empregabilidade

A concentração do emprego no sector terciário tem vindo a ser uma tendência desde 2011, devido também à queda dos sectores primário (agricultura, silvicultura, pecuária, pesca e caça) e secundário (atividades na indústria, construção, energia e água).

Ainda assim, dentro do setor secundário a evolução não foi uniforme. Entre 2011 e 2019, o emprego caiu em áreas como a construção (-28%) e indústrias extrativas (-31%), mas aumentou no setor da energia (+21%) e na manufatura (7%).

Sectores: alta tecnologia sobe e manufaturas desce

O emprego em setores de alta tecnologia aumentou 20% entre 2011 e 2019, o equivalente à criação de cerca de 330 mil empregos.

Este corresponde ao emprego em indústrias de alta tecnologia e em serviços intensivos em conhecimento.

Em contrapartida, os empregos com tarefas predominantemente manuais e com maior risco de automação estão a perder terreno.

Os empregos onde predominam as tarefas manuais – que requerem esforço físico, força ou interação interpessoal direta de natureza repetitiva – têm perdido terreno para empregos com tarefas mais abstratas – criatividade, organização e gestão, capacidade cognitiva e raciocínio abstrato.

O estudo revela também que, os empregos com menor risco de automação têm vindo, lentamente, a substituir aqueles em que, num futuro próximo, os trabalhadores podem ser substituídos por robots.

Competências: as que ganharam e perderam importância

A transformação do emprego registada entre 2011 e 2019 levou a que algumas competências tenham perdido espaço e outras tenham evoluído.

A “Programação e design de tecnologias” foi uma competência que cresceu na totalidade do emprego.

Embora menor, é também visível um crescimento da intensidade de utilização das competências de “Interpretação científico-matemática” e “Análise e avaliação de sistemas”.

Em 2018 estas três competências estavam associadas a um maior salário real médio entre os trabalhadores por conta de outrem. São ocupações que utilizam intensamente as várias competências e que são mais usadas em profissões do tipo abstrato.

Em contrapartida, no mesmo período decresceu a utilização de competências como “Monitorização e controlo de operações” e “Seleção, instalação e manutenção de equipamentos e sistemas”.

Profissões que mais perderam e ganharam

As 10 profissões que mais emprego perderam assistiram, no seu conjunto, a uma redução superior a meio milhão de postos de trabalho. Além disso, são profissões que empregavam funcionários menos qualificados.

Neste grupo inclui-se profissões do setor primário, mas também trabalhadores da construção, dos resíduos, da limpeza, da transformação de alimentos, madeira ou vestuário e trabalhadores não qualificados da indústria extrativa e transformadora, construção e transportes.

Em contrapartida, as profissões que mais cresceram, empregam na sua maioria mais trabalhadores qualificados e mulheres.

As mulheres estão em maioria no conjunto das profissões com maior crescimento. No entanto, há algumas exceções.

O peso feminino foi registado em profissões como: Trabalhadores dos serviços pessoais, Empregados de escritório e secretários, Professores, Especialistas em finanças, contabilidade, organização administrativa, relações públicas e comerciais, Vendedores, Profissionais de saúde e Trabalhadores dos cuidados pessoais.

Também no setor de “Especialistas das ciências físicas, matemáticas, engenharias e técnicas afins”, embora os homens sejam a maioria, as mulheres já ganharam terreno.

A grande exceção verifica-se nos “Especialistas em tecnologias de informação e comunicação (TIC)”. Em que o aumento do volume de emprego foi semelhante para ambos os sexos, o que fez com que o peso das mulheres neste sector não alterasse.

A escassez de oferta de trabalhadores em certas profissões

O aumento de emprego em algumas profissões específicas indica certamente um aumento da procura por estes profissionais.

Analisando o crescimento dos salários reais e do emprego por profissões, chegasse à conclusão que poderá haver escassez de oferta de trabalhadores em certas profissões.

Assim, são identificadas algumas profissões que registaram este crescimento, como: Profissionais de saúde, Especialistas em tecnologias de informação e comunicação e Técnicos das tecnologias de informação e comunicação.

 

Então, com um olhar para o futuro e a apresentação de um referencial de indicadores-chave e respetivas metas de desempenho aspiracional, este relatório conclui que o emprego aumentou mas está mais envelhecido e qualificado.

O “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal” irá mostrar anualmente vários indicadores-chave e a monitorização das principais dinâmicas nestas vertentes.

A Fundação José Neves

A Fundação José Neves pretende contribuir para transformar Portugal numa sociedade do conhecimento através da educação alinhada com as necessidades do futuro. A aposta em educação e formação relevante é crucial para os indivíduos manterem perspetivas de empregabilidade, realização e bem-estar, para as empresas serem melhor geridas e mais produtivas e para um Portugal mais competitivo e desenvolvido.

Fonte: Fundação José Neves